No coração do Raval, em um terreno feito de chanfro, Cal Mota impõe sua figura eclética, coroada por uma torre com uma cúpula de cerâmica vidrada. Projetado em 1893 pelo mestre construtor de Barcelona Enric Figueras Ribas sob encomenda dos irmãos Josep e Salvador Rovira Santacana, membros de uma família camponesa conhecida pelo apelido de “Mota”, o edifício se destaca entre os andares intermediários com uma presença quase palatina.
Organizada em subsolo, térreo, dois andares e telhado, a fachada principal é estruturada em dois eixos. O leste abriga o portal em arco semicircular que dá acesso a um salão coberto com pintura mural de paisagem; o oeste tem uma janela dupla com um arco rebaixado emoldurado por colunas fingidas. Os suportes e balaustradas são cobertos com folheados de mármore, enquanto a seção intersticial mostra um estuque neomoresco que contrasta com a fachada lateral, decorada com estofamento falso de ecos renascentistas. O primeiro andar é aberto por varandas com grade de ferro forjado; o segundo, por janelas em arco triplamente deprimidas cobertas por uma cornija apoiada por suportes.
Acima de tudo, a torre quadrada — com olhos de boi e janelas semicirculares — culmina o edifício e funciona como um ponto de vista privilegiado sobre o centro histórico e as falésias de Montserrat. Na parte de trás, uma galeria de colunas de ferro fundido se conecta ao jardim interno, um pequeno oásis que lembra a ostentação burguesa do final do século 19, quando a cava aumentou o prestígio local.
A casa, protegida como BCIL 1679-I e inventário IPAC 2853, nunca perdeu o uso residencial. Ele mantém boa parte dos acabamentos originais: pisos hidráulicos, carpintaria com vitrais policromados e molduras florais. Algumas intervenções específicas - substituição de telhas, consolidação estrutural da torre - foram realizadas sob supervisão técnica para respeitar a riqueza ornamental.
Além do interesse arquitetônico, Cal Mota simboliza a projeção social de uma linhagem de proprietários camponeses que, no início do século XX, participaram dos círculos intelectuais locais — os chamados “Sete Reis Magos da Grécia” — e do boom político da Restauração. Caminhar pelo Raval e observar sua cúpula policromada lembra a época em que Sant Sadurní começou a ser chamada de capital da cava com o desejo de se abrir para o mundo.